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27.6.14

"Aqui está um macaco para você levar de volta"

Moro no Rio Grande do Sul, um estado onde, certamente, você conhece um Rafael, um "alemão" e um "negão", "neguinho" ou "nego alguma coisa". O "Rafael" no caso, normalmente sou eu, ou então sou apenas um dos vários Rafaéis que o "alemão" ou o "negão" conhecem.

Em dia de jogo aqui na Capital gaúcha, fui com o "neguinho" passear à beia do Guaíba e conhecer a Fan Fest de Porto Alegre.

Pegamos o caminho a pé, para poder conversar com os turistas e ganhar alguma experiência no inglês básico que temos das nossas escolas.

Conversamos com Holandeses, Australianos, Argelinos, Sul Coreanos e americanos. Tudo muito bom, tudo muito legal. Até que um brasileiro veio nos pedir informações...

Enquanto o neguinho mostrava para um turista brasileiro no mapa como fazer para chegar de volta ao hotel, um grupo de estrangeiros se aproximou, tirou fotos e, num piscar de olhos, estava escrevendo no braço do neguinho sua assinatura. Vi aquela cena como se fosse um boi, sendo marcado pelo dono da fazenda.

Imediatamente após ele terminar o "autógrafo", peguei na mão do estrangeiro:
"Agora deixe ele autografar seu braço também."
"Não! Não! Nunca!" Foi a resposta.

Em um novo piscar de olhos, me vi gritando para o grupo de 5 bêbados.
"Onde vocês acham que estão? No terceiro mundo? Quem não respeita os outros, não merece respeito de volta!"
"Acho que deveria ter educação no seu país! Idiotas!"

O neguinho ficou quieto, o turista brasileiro me ajudou nos gritos de ordem para os estrangeiros.

A política do pão e circo virou política do Bolsa Família e Copa. Porém, aparentemente, o circo ainda existe e somos os macacos treinados deles.
Stallone já traduziu bem essa visão: “Você pode explodir o país inteiro e eles vão dizer ‘obrigado, e aqui está um macaco para você levar de volta para casa’.

21.2.14

Danger Girl

Baixa estatura, cabelo curto e escuroo, tatuagens, cara de brava e maquiagem forte nos olhos. Tenho um nome em particular para estas mulheres: Danger Girl.

São mulheres perigosas de se relacionar, são bombas prontas para explodir a qualquer momento. Parece que quanto menor, maior o risco e mais forte é a explosão.

Aí é que entra o grande problema, estas são justamente o meu ponto fraco.

Certa vez passei a pegar o mesmo ônibus que uma. Todos os dias a via, no mesmo horário, com as mesmas tatuagens, o mesmo cabelo escuro, curto, e o mesmo olhar de brava.

Ela possuía olhos escuros que brilhavam verde e um colar escrito Felicidade.

Comecei a conversar aos poucos com ela. Ela tinha uma aliança na mao direita.

À medida que fomos aumentando o tempo de conversa diária e a intimidade, descobri que a aliança era só algo que ela usava como adorno, era de um ex já falecido. Ele havia sido assassinado à facadas. "Ele não era flor que se cheire". Foi o comentário que ela fez sobre o caso.

Com o passar do tempo, acabamos tendo um relacionamento e tudo ia muito bem, até o dia que a bomba explodiu...

Não lembro qual foi o motivo exato da briga, mas acho que esqueci de trazer um doce pois era dia dos namorados em outro país, e comentei alguma foto de ex na Internet. Além disso, dormi antes de pedir o jantar de comemoração do dia de São Patrício.

Acordei quando a faca entrou no meu olho esquerdo. Devo ter levado mais umas 50 facadas antes de ela perceber que não precisava mais.

Não se envolva com uma Danger Girl, a menos que saiba como lidar com uma.

10.1.14

Até mais, e obrigado pelos peixes

Certa vez eu ia pegar um ônibus para viajar...

Eu estava uns vinte minutos adiantado. Confundi o horário do ônibus. Ou a companhia de ônibus tinha confundido o horário.

Resolvi comprar um jornal, para fazer as palavras cruzadas, e fui ate um restaurante para tomar um café.

Comprei o café e também biscoitos.

Com tudo isso em mãos, eu procurei uma mesa e sentei. Um cara que já estava na mesa, maleta de couro, terno e gravata. Não tinha cara de quem estava prestes a fazer uma coisa estranha. Perfeitamente normal. Ele estava sentado na minha frente.

Eu lá, sentado à mesa. À minha esquerda, o jornal, à direita o café, e no meio da mesa o pacote de biscoitos.
estava sentado nessa mesa.

Então o rapaz se inclinou sobre a mesa, pegou o pacote de biscoito, abriu, pegou um e comeu.

Diante das circunstâncias, fiz o que qualquer gaúcho viril faria. Fui obrigado a ignorá-lo.

Não e o tipo de coisa para a qual a gente esta preparado, né? Vasculhei minha alma e descobri que não havia nada na minha criação, experiencia ou ate nos meus instintos básicos me dizendo como reagir diante de alguém que, sentado na minha frente, simplesmente, calmamente, rouba um dos meus biscoitos.

Concentrei furiosamente a minha atenção nas palavras cruzadas... Não consegui preencher nada, tomei um gole de café, estava quente demais para beber, então eu não tinha nada para fazer. Me preparei. Apanhei um biscoito, tentando fingir que não tinha reparado que o pacote já estava misteriosamente aberto e comi o biscoito. Comi deliberada e ostensivamente, para que ele não tivesse duvida sobre o que estava fazendo.

Ele foi lá e apanhou outro. Sério, foi exatamente o que ele fez. Ele apanhou outro biscoito e comeu. Tão claro como a luz do dia. E o problema é que como eu não havia dito nada da primeira vez, ficou ainda mais difícil levantar o assunto da segunda vez. O que eu poderia dizer? "Com licença... não pude deixar de notar que..." Não dava mais. Então eu o ignorei, até mesmo com mais vigor do que antes

Olhei para as palavras cruzadas, novamente, não consegui fazer uma linha. Aí, inspirando-me na coragem de Bento Gonçalves na Revolução Farroupilha eu ataquei novamente, peguei outro biscoito. E, por um momento, os nossos olhos se encontraram e nós dois desviamos
o olhar. Mas devo dizer que houve uma pequena eletricidade no ar. Havia uma pequena tensão crescendo naquela mesa. Àquela altura.

Acabamos com o pacote assim. Ele, eu, ele, eu. Parecia que toda uma vida de biscoitos havia se passado diante
de nós. Nem mesmo os gladiadores enfrentavam algo tão difícil.

Quando o pacote vazio jazia morto entre nós, o cara finalmente se levantou, já tendo feito o pior e foi embora. Eu suspirei aliviado, é claro. Anunciaram o meu ônibus um pouco depois, então terminei o meu café, levantei, apanhei o jornal e, embaixo do jornal... Estavam os meus biscoitos.


Trecho extraído e levemente modificado do livro "Até mais, e obrigado pelos peixes!" da trilogia de cinco "O Guia do Mochileiro das galáxias", de Douglas Adams.

22.11.13

Obra de arte

Teu cabelo todo colorido,
me lembra um arco-íris.
Lindo!

Teus olhos têm o azul do céu
e junto com ele
levam o brilho do Sol.

Teus lábios são vermelhos
como frutos,
e fartos como seus seios.

Teu cheiro me faz morrer de amores,
parece vir das tuas tatuagens
de diversas flores.

Toda esta arte
na tua baixa estatura.

Ah, se eu pudesse...
Te colocava em uma moldura.

20.9.13

Baile da mariquinha

"Mas olha lá quem vem chegando
- Olá sobrinho
- Tia mariquinha!
- É verdade, de roupa nova!"

Às vezes vou me lembrando
do baile da mariquinha,
do xote velho largado
e da rancheira que vinha,

do café de chaleira
que a cumadre me servia,
farofa e feijão mexido
com uma quarta de farinha.

A melhor coisa do mundo era
o baile da mariquinha

"Mas que tal tia mariquinha, e o baita macho?
- Aquele bandido pára pára que a tia marica tá toda arrepiada!
- Afinal tia marica ele dançou e lhe deu algum beijo?
- Que nada me deu um carão e duas marca e me deixou que nem cavalo de lingo sem nada na boca lógico..."

Chegava os fins de semana
sábado de manhãzinha
dava dava dava dava aquele reboliço
mexerico de vizinha

e as véias batiam guizo
prás meninas na cozinha,
Ai vai botá um vestido novo juracy
presente da tua madrinha.

Todo mundo se aprumava
pro baile da mariquinha.

E os convidados do baile
que baile tchê
do baile da mariquinha.
Uns à pé e de à cavalo,
outros de carreta vinha.

E começava a dançar
gente grande pequenina,
ferravam na meia canha
com trovas e ladainhas.

Muito casamento deu
no baile da mariquinha.

"Lá no baile da mariquinha tinha de tudo prá moçada engraxar o bigode..
- É verdade
- Tinha costela gorda mulita na casca café preto com mistura bolo frito cuzcuz
- E não esqueça da velha cueca virada
- A senhora na cozinha ficava muito engraxada tia marica?
- Ah que horror a velinha ficava mais engraxada que telefone de açougueiro..."

E a segurança do baile
era de primeira linha,
tinha tinha tinha tinha o zapa no comando
e lá na copa o bijuquinha

E se estourasse a peleia
o tio zapa atendia,
tirava a indiada lá prá fora
e no tapa resolvia

A alegria continuava
no baile da mariquinha.

30.8.13

(in)Fidelidade

Eles tinham um casamento de 5 anos, nenhum filho, uma casa e um carro do ano.

Ele trabalhava muito, e era comum ele ter que passar uma noite fora, trabalhando. Era sócio de uma empresa de distribuição de materiais de escritório e vivia tendo reuniões, era alto, de cabelo castanho e corpo malhado. Frequentava a academia cerca de duas vezes por semana.

Ela era jovem, linda, de belos cabelos loiros cacheados e olhos azuis. Não trabalhava, mas a casa estava sempre impecável. Além disso, havia feito um belo curso e cozinhava muito bem.

Os dois pensavam em ter um filho logo e estavam há cerca de um mês tentando engravidar. Mas surgiu um compromisso e ele teve que ficar uma semana viajando para tratar de negócios. Ao retornar, ambos estavam com muito desejo e saudade um do outro, sem titubear os dois foram se beijando e agarrando até o quarto, deixando as roupas espalhadas pelo chão na medida que se deslocavam.

Se enroscaram tanto que já não sabiam de quem eram as pernas. Repentinamente, um barulho foi ouvido do lado de fora da casa, perto da porta da frente. Instintivamente, ela virou pra ele e gritou:

- Meu marido!

Ele, sem pensar duas vezes, pegou todas as suas roupas espalhadas pelo chão e entrou no armário, o seu próprio armário.


Tiveram uma longa conversa após isso...

23.8.13

Amor de infância é tão lindo...

Todo mundo tem um amor de infância, pode ser a professora, o professor, um ator ou atriz, aquele menino da turma que está uma série à frente, o menino ou a menina popular da escola...

O meu amor de infância era a Fernanda. Lembro claramente do primeiro dia que a vi: Aquela garota de louros cabelos cacheados entrando na sala de aula e passando no corredor pelo meu lado. Não sei se estava apaixonado já naquele instante ou ela realmente cheirava tão bem que me faria largar qualquer prova recém passada no mimeógrafo. De qualquer maneira, naquele instante que ela entrou na sala, tinha certeza que um anjo havia descido à terra, afinal eles eram lindos, loiros e de cabelos cacheados, não?

O tempo foi passando, fizemos amizade e meu objetivo era sempre ser melhor que ela em tudo pra me mostrar interessante. Queria ser mais velho, mas ela era um dia mais velha que eu. Queria ser mais rápido, mas não conseguia. Queria ser mais inteligente, mas nossas notas eram bem parecidas. Queria ser mais alto, mas tínhamos a mesma altura. Queria ser mais forte, mas ela acabava sempre chutando minhas canelas...

Ficamos amigos e todo dia ia vê-la na mesma esquina, com as mesmas pessoas, brincávamos das mesmas coisas. Na mesma época todos queriam deixar de ser BV e eu queria que meu primeiro beijo fosse com ela.

O tempo passou, o beijo nunca aconteceu, crescemos, estudamos juntos várias vezes, a amizade foi e voltou várias vezes assim como as turmas que estudávamos. Acabei me mudando e perdemos o contato.

Anos depois, tive uma inflamação na garganta que me forçou a um tratamento com 4 injeções de "Benzetacil 1.200", uma por mês. Tomei a primeira e senti a pior dor do mundo, tomei a segunda e percebi que movimentando bastante a perna logo após a injeção, melhorava a dor.
Ao chegar pra tomar a terceira me deparo com quem lá? Sim a Fernanda. Adivinhem quem me aplicou dolorosa injeção? Sim.

Todo mundo tem um amor de infância. Todo mundo imagina a pessoa mais linda e perfeita do mundo. Todo mundo cresce... Mas quantos acabam do jeito constrangedor que acabei?

16.8.13

É uma cilada!

Era aniversário de um amigo daqueles que só vemos uma vez por ano e normalmente não temos mais nenhum amigo em comum, mas gostamos bastante, sabe?

Como não tinha amigos em comum com ele, teria que ser meu próprio motorista e ia ter que ficar sem beber.

Cheguei na festa uma hora depois do marcado para começar e haviam poucas pessoas ainda, mas aparentemente todos se conheciam e eu, conhecia apenas o aniversariante.
O que você faria? Bom, peguei um copo de alguma bebida e disse à mim mesmo: "Vai ser só essa pra descontrair, até a hora de ir embora, pela manhã, já estou livre e posso ir pra casa tranquilo".

Dito e feito, aquele foi o único copo que peguei espontaneamente durante a noite. mas, qualquer grupo de pessoas que abordava, acabava tomando um gole de sua bebida. O resultado foi que quando a festa acabou, por volta de duas da manhã, ainda estava tonto. O pior, NINGUÉM ia para o mesmo lado que eu, teria que ir sozinho e com cuidado pra não dar nada errado.

Felizmente estava bem o suficiente pra ter consciência do meu estado e voltei dirigindo de forma cuidadosa. Ao passar por uma avenida conhecida por entretenimento masculino, vi uma loira fantástica, a única na rua aquela hora, e aparentemente estava esperando um taxi passar para ir embora. Meio tonto, resolvi me aproveitar.

Parei o carro ao lado, abri o vidro e perguntei: "Pra que lado vai?"
Ela apontou justamente o lado que ia. "Entra que te dou uma carona."
Assim que ela entrou no carro e a luz interna a iluminou, vi que a mulher não tinha nascido mulher, era uma cilada.
"Putz desculpa, eu achei que era uma amiga minha e..."
Antes que eu terminasse a frase, luzes de um carro de polícia se iluminaram meu carro. "Puta que pariu, parei em local proibido!"

Tentei arrancar, mas fui parado pela sirene. Imediatamente tive armas apontadas para o carro e gritos de "Desce magrão!"
Desci, fui apoiado no carro e revistado.
"O que tu e tua namorada têm pra esconder aí?"
"Ela não é minha namorada, só ia dar uma carona."
"E por que tu ia fugir?"
"Eu pensei que estava parado em lugar proibido."
"Tá na nóia, né magrão? Tu e tua namorada."
"Ela não é minha namorada, eu tô tranquilo."

Eles pegaram os documentos e foram averiguar. Sorte que a garota não tinha nada com ela também. Mas só conseguia pensar na cena de chegar na delegacia com um travesti. Certo que meu apelido viraria Ronaldo pro resto da vida. Só conseguia repetir pra mim mesmo infinitas vezes: "Puta que pariu".

Não havia nada de errado com os documentos e pra minha sorte, não fizeram teste do bafômetro.

"Vai lá magrão, pode ir embora com tua namorada."

Certo que aquilo era uma armadilha, uma cilada.

26.7.13

Vida de suporte

- Blérg! Esse café tá horrível, parece suco de pneu.
- Tá ruim mas já é teu quinto cafezinho hoje, né?
- Ah cara, não enche o saco. Hoje tá parado, pode ter certeza que a primeira ligação vai ser uma coisa bem idiota, tipo colocar o computador na tomada.
- Ou então só ver se o caps lock tá ativado ou não pra colocar a senha, hahaha!

...

- Suporte, boa tarde!
- Não tem nada de bom! Comprei esse notebook aí de vocês e veio tudo errado!
- Como assim senhora, poderia me explicar melhor sua dificuldade?
- Comprei esse computador de vocês e ele não veio com o Windows que eu sei usar, eu sei usar o XP!
- Qual Windows a senhora tem?
- Veio com o Windows Virtua! E, falando em internet, eu pedi com internet sem fio e não tá pegando.
- A senhora consegue localizar o sinal do roteador?
- Meu filho, moro no décimo primeiro andar, pego muito bem todos os sinais aqui, de TV, de telefone celular, só o do notebook com internet sem fio que não está pegando...
(silêncio)
- Mas a senhora tem um roteador pra ter internet sem fio no seu apartamento?
- Precisa de MAIS UMA COISA?
- Sim, é preciso um equipamento que transforme a internet em sinal de rádio, para que o notebook navegue.
- Mas ele tem o Windows Virtua, você não me ouviu? Não vem já com isso da internet junto?
(silêncio)
- Não, na verdade é Windows Vista, não Windows Virtua.
- Então veio o Windows sem internet?
- Na verdade não existe Windows Virtua, o Windows tem internet sim, mas como eu expliquei, pra usar o wireless a senhora precisa de um roteador para fazer o sinal da sua internet ficar sem fio.
- Ah, então vou cancelar meu Virtua e comprar uma aparelho desses que dá internet em casa.
- A senhora precisa ter um plano de internet, o aparelho só transforma a internet com cabo em sinal de rádio, pra senhora poder pegar este sinal livremente no seu apartamento.
- Ah moço, isso é muito complicado. Preciso de um técnico aqui pra me mostrar como é a internet sem fio, pois não tô entendendo. Tenho internet sem fio no computador, tenho Windows Virtua e moro no décimo primeiro andar e não tenho esse sinal aqui. Vou chamar meu sobrinho que entende desses negócios de computador e ele me explica. Tchau.

...

- E aí, era coisa idiota?
- Não sei dizer, ela quase me convenceu.
- Vish, minha tia tá me ligando... Tô lascado.

14.6.13

O primeiro protesto a gente nunca esquece.

Tinha meus 19 anos. Estava no alto do fervor, entre a adolescência e a vida adulta. Ainda não tinha nenhuma responsabilidade em casa além do meu quarto e dos estudos. Lavavam minha roupa, faziam meu almoço, limpavam a casa, compravam as coisas básicas pra casa e eu não gastava nenhum centavo com isso.

Me convidaram para um protesto e topei na hora, queria fazer meus direitos valerem, mostrar que estava insatisfeito com a situação, que não estava bom pra mim e a população precisava da minha ação para salvá-los da tirania do governo opressor. Vamos à luta! Levante, lute!

Cheguei ao local, cheio de energia. Me ofereceram um vinho, sentamos na calçada e ficamos bebendo enquanto iam chegando mais jovens para dar mais força ao nosso protesto.

Chegou um cara e me mostrou o que tinha na mochila: Um coquetel molotov! Meu sonho sempre foi jogar um. Mas esperava que não precisássemos chegar a tal ponto. Sempre fui pequeno e magrelo, certamente me daria mal em um confronto direto.

Enquanto aguardava, estava louco de vontade de ir ao banheiro, aquele vinho todo e a demora pra coisa começar estava me dando muita vontade de tirar água do joelho. Além disso, começavam a se juntar policiais pedindo pra não fazermos bagunça e nos ameaçando com tasers, que eram coisa nova na época.

O protesto começou, alguns manifestantes quebraram algumas paradas de ônibus e algumas janelas até que a polícia chegou em peso para nos controlar. Olhei para os lados e meus companheiros de luta estava com as camisas no rosto, eu não entendia o motivo até que uma bomba de gás foi jogada do lado de lá. Assim que ela estourou, um coquetel voou do lado de cá. Corri para a frente da manifestação afim de impedir que a coisa ficasse mais séria, mesmo sem enxergar direito por causa da irritação da bomba de gás.

Cheguei com as mãos pra cima, entre policiais e os esquentados, tentando apaziguar a situação e, senti a maior dor do mundo bem na axila.

Um dos policiais sacou o taser e deu um choque bem no meu suvaco, sem proteção, já que estava com os braços para cima e camiseta de manga curta. A dor foi tanta que não contive mais a vontade que estava de ir no banheiro. Sim, me mijei, e não foi pouco. Foi o suficiente para que a revolta parasse e se transformasse em risos dos dois lados, por alguns segundos. Meu objetivo foi cumprido, parei o confronto iminente da pior maneira possível.

Logo após os policiais me algemaram e levaram pra delegacia, rindo da minha cara, dizendo que eu era um dos líderes do confronto. Imaginem que legal eu ligando pro meu pai, pra ir me pegar na delegacia todo mijado. O primeiro protesto a gente nunca esquece.

26.4.13

Mary Jane

Durante minha adolescência, assim como muitos, matei aula, pulei muro, bebia escondido e desafiei alguns limites da sociedade.

Certo dia, ao chegar ao colégio para estudar, alguns colegas falaram sobre um novo lugar onde a galera ia pra jogar bola, andar de skate e matar aula, em geral.

Na hora aceitei e fomos ao lugar. Era uma praça que ficava no final de uma rua pouco movimentada e bem larga. Na praça, adolescentes bebendo, fumando e jogando futebol. Na rua, skatistas pulavam e faziam manobras sobre caixas de madeira e pedaços de ferro.

Sentamos na calçada pra ver a galera andando de skate, abrimos nossa garrafa de vinho barato que compramos no bar na frente do colégio e começamos a beber.

"Bah, podia dividir esse vinho aí" Ouvimos logo em seguida. A frase veio na direção de três meninas sentadas próximo de nós.
"E o que a gente ganha de volta?" Um dos meus amigos respondeu.
"A gente tem erva. E o bonitinho de olho azul ganha um beijo também, se me trouxer o copo."

Eu, envergonhado como sempre fui, fiquei vermelho na hora. Olhei na direção tentando ver qual delas havia dito aquilo e imediatamente meu olhar se prendeu à menina de cabelo castanho claro com dreads, olhos cor de caramelo e um rosto lindo. Ela fixou o olhar em mim e disse: "Não gostou da oferta?"

Levei o copo de plástico com vinho barato até ela. Ela estava sentada na calçada com seu skate de lixa rosa, com um tabuleiro de xadrez no shape. Ela ficou de pé, pegou o copo, tomou um gole e me deu um beijo longo, com gosto de uva e álcool. Ela me ofereceu o que fumava, eu recusei. Sentei ao seu lado e começamos a conversar.

Ela era linda, completamente apaixonante... Gostava de músicos, artistas, dreads, vestidos, leitura de cartas de tarô, braços fortes, alces, bigodes, fumar, café e refrigerante.
Eu achei estranho, já que não fumei com ela, não tinha(nem nunca tive) braços fortes e tudo o que tinha era uma penugem no rosto e mesmo assim ela havia se interessado em mim. Alguns minutos depois perguntei seu nome. Ela jogou toda a fumaça que tinha no corpo na minha direção e respondeu rindo: "Pode me chamar de Mary Jane".

Trocamos telefones e passamos a trocar mensagens pela manhã e à noite. Ela me ligou algumas madrugadas um pouco alterada e, em uma destas trocas diárias, ela falou que seu irmão mais iria viajar e ela ficaria na casa dele cuidando. Ela me passou o endereço e pediu que eu fosse visitá-la.

Matei aula outro dia e fui até o endereço citado. Ela me recebeu usando um vestido amarelo e acompanhada do cachorrinho do seu irmão. Naquele dia descobri outras coisas que ela gostava, como tatuagens, piercing no mamilo, pornô, falar palavrões e afagos pós-sexo. Pra variar, envolto à fumaça.

Ela tinha um cheiro de rosas, parecia ter o poder de expelir feromônios do amor e possuía lábios venenosos, viciantes. Eu queria largar o mundo inteiro e viver intensamente ali, aqueles momentos... Então fiz a coisa errada, falei que estava apaixonado.

"O quê, tu me ama? Hey rapaz... Eu posso foder teu cérebro. Não é nada pessoal... Essa é a minha natureza. Vou abrir a porta pra ti, vamos nos manter livres, tá? Vamos voar."

Desde então ela ficou distante, perguntei o que havia acontecido e comentei sobre ela estar distante e a resposta foi que aparentemente era isso que ela sempre fazia, pois era o que todos reclamavam. As mensagens e telefonemas diminuíram até se acabarem. Sofri muito tempo sua abstinência, mas em seguida surgiu outra menina que enchesse meus olhos e me viciasse novamente.


"De dia me alucina
De noite me atucana
Me leva para céu
Me leva para cama
Na pele de um anjo
No corpo da gostosa
O diabo é mulher
Que cheira como a rosa"

15.3.13

Não tá fácil pra ninguém

Estava em uma fase difícil da minha vida, estava desempregado, sem dinheiro, com as contas acumulando na porta de casa. Além disso, parecia que o Saci vivia na minha volta só pra me sacanear. Goravam meus ovos, minha pipoca era só piruá, azedava o meu leite, queimava o feijão e sumiam meus utensílios domésticos. Não estava nada fácil.

Pra piorar, estava há quase um ano sem pegar nada além de gripe. Se eu quisesse receber carícias, teria que pagar. Já falei que estava sem dinheiro e desempregado? Pois é. Não estava fácil.

Pra tirar a "zica", fui à praia tomar um belo banho de água salgada. Talvez o mar levasse embora tudo de ruim que tinha. Passei algumas horas no mar. O resultado: tive insolação e peguei uma gripe. É, não tinha resolvido nada. Não estava fácil.

Um dia, andando na rua, uma garota ficou me olhando, olhei de volta e sorri, ela sorriu também. Conversamos um pouco e eu descobri que ela me reconheceu, havíamos estudado anos atrás na mesma escola. Trocamos contatos. Perguntei se ela tinha ficado me olhando por me reconhecer rápido. Ela respondeu que não, era pelo cocô de pombo que tinha no ombro. É, não estava fácil.

Conversamos pela internet e por mensagens, marcamos de sair, ira a uma festa e nos divertir. Pedi emprestado o carro de um amigo. Estava sem gasolina, tive que abastecer e lá se foi um pouco da pouca grana que tinha guardado para aquele dia. Cerca de duas quadras da casa dela, o pneu furou, assim que ela me viu, estava suado e com as mãos sujas do contratempo. Não estava fácil.

Fomos à festa, não podia beber nada já que estava dirigindo, então fiquei tomando energéticos, vários energéticos. Ela bebeu um pouco, inclusive tequila. Percebi que, pela primeira vez em muito tempo parecia que ia ser fácil. O problema: o energético em excesso me deu gases e passei o caminho todo de volta segurando o que não dava pra segurar pra tentar não fazer barulho e não infestar o carro com nenhum cheiro. Não estava fácil.

"Vamos comer um lanche?" Ela me perguntou. Fomos até uma lanchonete que ficava aberta 24h. Depois dali, pretendia parar na entrada de um motel e perguntar "Bora?" se ela aceitasse, tiraria o azar do corpo, se não aceitasse, era só uma brincadeira. Enquanto isso, meu estômago estava incontrolável. Não estava fácil.

Comemos e isso foi o suficiente para que eu precisasse imediatamente ir ao banheiro. Fiquei imaginando o que fazer, não ia ser muito sexy entrar no quarto do motel com ela e correr para o banheiro. Pelo jeito que minha barriga estava, não ia ser nada silencioso e tampouco sem cheiro. Estava suando frio e não conseguia mais escutar nada do que ela dizia, só pensava que precisava ir ao banheiro, nem na direção estava prestando atenção. E, num piscar de olhos, estava na frente da casa dela. Não estava nada fácil.

Ela fez uma cara de decepção, nisso consegui prestar atenção enquanto abria a porta e me inclinava para que o cheiro saísse direto para a rua. Não sei se ela sentiu o cheiro, se ela ouviu os barulhos, eu estava desesperado e não ia dar pra fazer nada naquele dia. Não lembro nem se dei um beijo nela naquela noite, apenas sei que ela saiu de lá decepcionada.

É... Não está fácil pra ninguém.

8.3.13

Violeta

Ela sabe que é linda, que tem um belo corpo, que todos os homens a desejam, que é inteligente e tem um emprego com ótimo salário. Por esta razão, se gaba nas redes sociais que poe escolher o homem que quer e que nenhum lhe faz de boba, se um homem faz qualquer coisa que não agrada ela parte pra outra. Consequentemente, setá sempre solteira.

Foi justamente se gabando em uma rede social que a conheci. Não falei nada, não comentei nada. Decidi que ia brincar um pouco e iria fazer justamente o que ela diz que nenhum homem faz com ela.

Ela ia estar em um encontro de pessoas da internet, alguns dos participantes eram meus amigos, decidi que este seria o dia. Com gente olhando a coisa ia ser mais divertida e desafiadora pra mim.

Na semana do evento, treinei um pouco abordando pessoas desconhecidas na rua e mantendo uma conversa por mais de 5 minutos com estas pessoas. Treinei com vendedoras de lojas algumas táticas e consegui alguns telefones e perfis adicionados e pokes no Facebook. Aparentemente estava bem afiado pro desafio.

Durante a semana, fiz um comentário em uma das postagens dela baixando a bola dela sem ofender diretamente, o que gerou uma resposta áspera. Objetivo alcançado.

No dia do evento fiquei conversando com meus amigos, ela em outro canto, conversando com outras pessoas. Quando um amigo em comum estava conversando com ela, cheguei e observei a conversa por alguns segundos.

- Ah, mas casamento é uma coisa complicada. Tu tem teus gostos e a pessoa tem as dela, mesmo que no início os gostos sejam parecidos, um detalhe ou outro podem já ser o motivo de uma briga ou discussão. - Comentava meu amigo.
- Os dois lados precisam ceder. - Disse e me apresentei, simplesmente estendendo a mão e dizendo o nome.
- Ah, o garoto que responde gente que sequer segue. - Ela respondeu enquanto apertava minha mão.

Ignorei completamente o comentário dela e expliquei meu ponto de vista. Meu comentário durante a semana havia sido ótimo, pois ela havia até visto que não a seguia.

Passei alguns minutos ali e circulei pelo local, com um sorriso no rosto. Dei muita atenção às outras mulheres do local, pouca ou quase nenhuma atenção à ela. Mesmo assim, sempre me posicionava em seu campo de visão, pra que não me esquecesse. Em dado momento descaradamente dei em cima de uma das meninas que estava conversando com ela elogiando seus olhos azuis. Coisa engraçada, já que "violeta" tinha olhos violeta, talvez os olhos mais lindos que eu já vi em alguém tão de perto.

Ela comentou algo a respeito da beleza dela, tentando chamar minha atenção. Rebati dizendo que beleza é relativo e que normalmente mulher que trabalha demais o corpo acaba virando só objeto pros homens. Completei com um "Mas tu é bonitinha também, não fica triste". Ela começou a rir, neste ponto ela ia me ignorar e desistir de mim, era a hora de trocar a estratégia. Perguntei se ela recebia muita cantada, já que se achava linda.

Ela comentou que sempre era bajulada, já que era linda. Perguntei se na rua era assim, ela confirmou. Aproveitei o gancho e perguntei se gostava de viajar e qual o lugar mais legal que já tinha ido.

- Rio de Janeiro, lá é lindo e tem tudo do bom e do melhor.

Aproveitei e contei uma história interessante sobre um amigo que conhecia um milionário do Rio, e puxei duas histórias engraçadas sobre paulistas não gostarem do chiado dos cariocas e o tempo que passei em São Paulo. Ela riu das duas histórias engraçadas. Continuei, por mais um tempo, dosando entre histórias engraçadas e interessantes pra prender sua atenção. Falei muito, coisa que não costumo fazer, mas era necessário.

O tempo passou e as outras pessoas começaram a ir embora, sugeri que fossemos comer algo em outro lugar e sugeri irmos caminhando, pois queria ver se alguém ia soltar alguma cantada, já que era tão linda assim. Ela disse que não estava tão interessada em receber cantadas naquele momento.

Caminhamos pela rua conversando, chegamos à lanchonete e comemos. Tive que manter a conversa ativa o tempo todo, ainda. Ela disse que não queria ir pra casa e que queria beber e dançar. Fomos para o primeiro lugar legal próximo que estava aberto. neste momento ela já puxava os assuntos e me puxava pela mão.

Assim que entramos no local, começamos a dançar bem próximos.
- Tá parecendo que tu quer me beijar - Comentei.
- Talvez.
Nos beijamos.
Naquele momento meu objetivo estava alcançado.

Resolvi aproveitar o resto da noite e acabei bebendo um pouco demais. Acordei na minha casa, somente de cueca e com o sol batendo na cara. Pensei "droga, bebi demais e fiz alguma merda, acabei perdendo a guria." Neste momento a porta do banheiro abriu e ela saiu de lá usando somente uma calcinha violeta. O corpo dela era lindo e ela estava ainda mais linda pela manhã. Ela disse que tinha que ir embora, me beijou com vontade, se vestiu e foi embora.

Logo que ela saiu, lembrei que dei uma desculpa pra levá-la pra casa, mostrei algumas fotos no PC, acabamos nos agarrando e ela resistiu na última hora. Ignorei ela, voltei para o PC e comecei a olhar as redes sociais, ela foi até lá, sentou no meu colo, se adicionou pelo meu perfil e me levou até a cama.
Será que ela só fica com quem  quer e não cai nos papos de qualquer homem mesmo?

22.2.13

Rosa

Todos têm ou já tiveram
Uma vovó cheirosa.
Hoje vou contar à vocês,
Contar sobre a dona Rosa.

Eu a conheci por engano,
Indo para o trabalho.
No dia em que me atrasei
E fui em outro horário.

Tipicamente uma nonna,
Uma senhora, idosa.
Sequer conversei com ela,
Mas pra mim, se chama Rosa.

Ela mudou minha viagem,
Ela mudou minha imagem,
Atrás da orelha, uma tatuagem.


8.2.13

História carnavalesca

Eu te amei demais, te dei meu coração, minha paixão... Tu foste minha inspiração. A música que tocava na minha cabeça o tempo todo era aquela, do nosso primeiro beijo.

Não tínhamos nada em comum. Tua preferencia sempre foi pela leitura, musica pop e o azul é tua cor preferida. Já eu, prefiro cinema, rock e o vermelho me parece muito melhor.

Foram essas diferenças que eu achei que nos atraíam. Acabei mudando meu jeito pra tentar me adequar ao teu. Aprendi a beber cerveja, comecei a usar azul, aprendi culinária, tua especialidade...
Estudei muitas coisas em segredo pra te agradar. Passávamos muito tempo juntos nas tuas férias e era impossível não discutirmos sobre política, religião ou futebol cada vez que sentávamos na mesa de bar.

Tuas férias acabaram, e com elas o teu tempo. Tu sempre foi muito concentrada no teu trabalho e dedicava todo teu tempo pra ele. Nunca mais tivemos um tempo juntos. Enquanto isso, via pelas redes sociais que sempre estava com outras pessoas em outros lugares. Hoje já nem temos mais contato além de um seguir o outro e alguns compartilhamentos raros.

Dessa vez fui o Pierrot, no fim. Na próxima, quem sabe sou o Arlequim.

"Os dispostos se atraem, os opostos se distraem."

Mostre disposição da próxima vez ;-)

25.1.13

Parker

Levantando-se bruscamente, abriu a janela, deitou a cabeça de fora e recolheu-a um momento depois, ao mesmo tempo que praguejava energicamente: Diabo!

Imediatamente todos no restaurante olharam assustados para a moça. Uma mulher deveria ser feminina e a população não podia aturar rapariga moderna neurótica que dança de manhã à noite, fuma como uma chaminé e usa uma linguagem dessas.

A vista que todos tiveram foi a de uma moça com rosto bonito e atrevido, coroado por um chapeuzinho vermelho não menos atrevido. Seus cabelos dourados cobriam cada uma das orelhas. Deveria ter seus 19 anos.

- Valha-me Deus, escandalizei os nossos clientes!
Observou dirigindo-se à audiência.
- Peço desculpa da minha linguagem. É muito pouco feminina e tudo o mais, sim senhor, mas, meu Deus, tenho motivos mais do que suficientes para a utilizar! Acabo de ler no jornal que meu esposo está preso!

Normalmente ela não tinha uma atitude dessas, era educada, gentil, com bons modos e, principalmente, um linguajar polido e inteligente. Tanto que já havia chegado a trabalhar escrevendo introduções de discursos para políticos locais.

Era muito atraente, muitos dos clientes do restaurante tentavam flertar com ela. Tinha 1,50 m de altura e pesava 41 kg. Era simplesmente encantadora. Entretanto, tinha uma personalidade muito forte.

Um dos funcionários do restaurante comentou com um cliente assim que a cena se concluiu:
- Quando fica furiosa ela é assim. Um autêntico diabinho! Não possui papas na língua nem nos atos! Uma vez quase mandou um tipo desta para melhor. Sério! Ele não estava a merecer outra coisa, aliás. Ainda um dia destes se mete em encrenca. Sabe-se lá seu esposo não é do mesmo tipo e, por esta razão, acabou preso.

Minutos depois, enquanto servia, um dos clientes tentou puxar assunto com a bela moça, apresentando-se.
- Eu sou Teodhore Standard, sua beleza e sua personalidade são muito atraentes, não gostaria de trocar algumas palavras após seu expediente?
- Teodhore Standard... Conversaria com prazer com uma versão Deluxe, mas a Standard não, obrigada.

Imediatamente o carteiro sentado na mesa ao lado começou a rir da cena e, principalmente, da velocidade de raciocínio que a moça tinha para responder às mais diversas investidas que sofria diariamente no restaurante. Ele era um frequentador e já conhecido dos funcionários. Obviamente já havia tentado algo com a moça e se dado mal.

- Não dê risada de nossos outros clientes, Mr Hinton. Não te esqueças que foste tão abusado quanto ele comigo.

Mesmo recebendo todo tipo de cantada de homens mais velhos e de sucesso na vida. Mesmo com a experiência de ter já casado e separado. Mesmo com sua inteligência e perspicácia acima da média ela não sabia que o homem que mudaria sua vida teria a sua idade e seria abusado o suficiente para, em 1930, usar uma cantada que ela teria prazer em cair.

- A senhorita gostaria de me ver lhe dando um beijo?
- Não!
- Então feche seus olhos.

11.1.13

Cleptomaníaca

Tive que resolver um problema em uma cidade vizinha e, na volta, achei um bar bem bonito. Resolvi parar e tomar um refrigerante.

Enquanto estava sentado no balcão, várias pessoas iam e vinham, sentavam e levantavam ao meu lado. Não sei quanto tempo fiquei ali, mas deve ter sido um tempo considerável.

Durante o início da noite, uma loira alta, de olhos verdes e cabelos cacheados sentou ao meu lado e pediu um Martini.

Um cara sentou ao lado dela e ela, descaradamente, deu em cima dele. Ela não parecia ser uma mulher inteligente, mas tinha um corpo escultural. Talvez terminasse como assistente em algum programa humorístico ou como ex-esposa de jogador de futebol ou cantor de pagode.

Depois de alguns minutos, o cara saiu de perto dela, provavelmente por ela ser muito burra... Ou por ele ser gay, já que ao sair, beijou um homem que estava do lado de fora do bar.

Ela olhou em volta do bar até me achar, sentado ao seu lado. Então começou a conversar comigo, nitidamente fingindo estar bêbada, já que tinha tomado somente uma taça de Martini e sequer tinha tocado na azeitona que tinha no drink.

Inicialmente não dei muito papo, até que comecei a me divertir com as palavras erradas, e com o fato de uma mulher daquelas estar dando em cima de mim descaradamente.
Ela confessou ter tatuagens de "organogramas chineses" dizendo "sorte" e "sexo". Achei engraçado e melhor não corrigir.

Quando fui sincero e falei que havia visto que ela só queria atenção de algum homem ela confessou:
"Na verdade, eu só não quero passar a noite em casa, entendeu? É que tenho um problema, sou cleptomaníaca."

Organograma ou ideograma, cleptomaníaca ou ninfomaníaca, vodka ou água de coco... Naquele momento não fazia tanta diferença.

Cerca de uma hora depois chegávamos ao meu apartamento. Ela não demorou nada pra tirar a minha roupa e a dela, nos divertimos por algumas horas.
No meio da madrugada ela me acordou com um par de algemas e pediu para ser algemada, depois foi a minha vez de ficar preso.

Na manhã seguinte, acordei ainda algemado, algumas gavetas estavam reviradas e algumas coisas simplesmente não estavam ali.
Na cama, perto de mim um bilhete: "Te avisei que era cleptomaníaca. Beajs."
Isso foi o que sobrou da moça cleptomaníaca.

4.1.13

Resoluções de ano novo

Dia 31 ele usou branco, da cueca à camiseta. Pulou as 7 ondas, comeu lentilha, pulou sete ondas, brindou com espumante...

Ao abraçar seus amigos, abraçou seu pai e sua mãe, desejou muita paz, saúde, felicidade e prosperidade no ano que se iniciava.

Pensou nas reflexões de ano novo:
- Amanhã começo uma dieta. Faço mais exercícios e começo uma vida saudável.
- Neste ano mudo tudo, começo a passar mais tempo com minha família, meus pais e meus irmãos.
- Começo um novo ciclo, arriscarei mais e lutarei com muito mais forças para alcançar meus objetivos.

Ao final da semana, sequer comeu uma fruta, sequer correu para pegar o ônibus, sequer ligou para seus irmãos para desejar um feliz ano novo, sequer saiu do computador durante o dia...

Muitos sempre me perguntam se o que escrevo aqui é real. Bom, agora é real.
Esta é a minha história, é talvez a sua história e de mais um monte de gente.

Nesta primeira semana do ano, quantas promessas você já deixou para trás?
Quantas vezes você já disse "Amanhã eu começo" ou "na segunda eu começo"?

Você já parou pra pensar diferente de verdade? Você já percebeu que "este ano" e "segunda eu começo" não funcionam tão bem quanto o "Vou fazer agora!"?

Encare seus desafios, e comece isso agora, não segunda, não ano que vem, não mês que vem. Levante da cadeira com um objetivo e não pare até concluí-lo. Não deseje milhares de coisas, trace um ponto final e escreva sua história até ele. Chegando lá, é hora de escrever a próxima frase, a próxima página, o próximo livro.
Mas, uma coisa é certa. Não inicie isso semana que vem, não inicie isso quando o Sol nascer, inicie isso agora!

Faça da sua vida uma eterna batalha, sempre busque mais, enfrente os maiores desafios, de verdade, não fique apenas no desejo. Faça! Lute! Caia e levante!

E, quem sabe... Deseje isso para seus amigos, seus familiares e pessoas queridas também. Uma coisa eu aprendi nos meus poucos anos de vida: Nada vem de graça e todo esforço é recompensado.

Quer que uma pessoa se dê bem na vida? Deseje muita luta, deseje muitos desafios, assim a pessoa crescerá e poderá dizer que superou um grande obstáculo. As pessoas crescem perante os desafios e, desejar que a pessoa tenha um ano repleto de lutas e desafios é desejar que ela evolua, se importe mais consigo e com os outros, perca o medo de cair, pois sabe que irá levantar e seguir caminhando e, principalmente, comece isso já!

Repense agora, reflita agora e comece agora. Te desejo um ano repleto de desafios e conquistas. Volte aqui e me diga no que você venceu e como sente-se após ter vencido mais um desafio.

28.12.12

Algumas coisas mudam...

Aos 5 anos de idade: Era querido por todas as suas vizinhas adolescentes, brincavam que eram suas namoradas, ele adorava isso. Nunca deu problema para seus pais, era um filho calmo e obediente.

Com 7 anos de idade: Teve sua primeira briga, com um menino de 5. Todos sabemos que um ano faz muita diferença quando se é criança. Dois anos são quase uma década de diferença. Mesmo assim, ele perdeu.

Aos 9: No meio de uma aula, ela apareceu. Vinda da cidade grande, cabelos dourados, olhos verdes como esmeraldas, um perfume melhor que qualquer flor que ele já conhecera.

Aos 10: Eles conversaram pela primeira vez. Perceberam que tinham gostos em comum. Acabaram se tornando melhores amigos.

Faziam tudo juntos, passavam trotes nos orelhões, andavam de bicicleta, jogavam bola, brincavam de bonecas, casinha, escolinha, peão, taco e video-game. Um vivia na casa do outro.

A adolescência veio e ela começou a namorar. Ele continuou com o posto de melhor amigo, alguns namoros dela acabaram por causa de ciúmes dessa amizade. Ele sempre estava lá para dar conforto à ela quando ela estava triste. Dormiram abraçados algumas vezes, mas ele nunca sequer lhe deu um beijo.

Aliás, ele nunca beijou outra menina. Seu amor por ela sempre impediu que ele sentisse qualquer coisa por qualquer outra menina.

Aos 17: Ele recebeu a notícia que ela havia perdido a virgindade. Ela lhe contou todos os detalhes e disse que este era o cara certo. Ele sabia que o cara que realmente era certo e ia amá-la incondicionalmente era ele, mas tinha receio de falar e estragar a coisa linda que existia. Esta notícia deixou ele muito triste e ele resolveu ir para a cidade grande.

Aos 18: Se alistou na cidade grande. Na hora da despedida, ele quase se declarou ao vê-la chorar. Mas, sentiu vergonha.

Aos 19: Tinha abandonado o corpo magrelo e os cabelos desarrumados. Tinha um corpo definido e forte, barba sempre feita.
Tinha abandonado a vergonha também. Um dos companheiros de alistamento havia lhe dado algumas dicas e, em 20 minutos ele conseguia beijar qualquer mulher, mesmo acompanhada. E, em cerca de 7 horas de interação, ele conseguia levar qualquer mulher para a cama.
Ele havia abandonado aquele garoto magro, introvertido, envergonhado e se tornado carismático, belo e capaz de encher de alegria qualquer lugar.
A única coisa que não havia abandonado era seu amor por ela.

Aos 21: Entrou como sócio de um amigo em um restaurante. O lucro veio rápido e ele se tornou um dos homens mais ricos que conhecera. Isso só aumentou o número de mulheres na sua vida.
Agora ele tinha confiança e sabia que ao encontrá-la novamente, iria conseguir dizer tudo aquilo que guardava há mais de 10 anos.

Aos 25: Ele resolveu voltar para sua cidade e ver como ela estava. Não recebia notícias dela há cerca de 3 anos.
Logo ao chegar, encontrou uma ex-colega. Em 40 minutos estavam saindo do banheiro da rodoviária ajeitando suas roupas. Ele, de fato, podia ter a mulher que quisesse. Já havia tido romances com modelos e mulheres famosas.
Alugou um carro e foi ver seus pais.
Resolveu visitá-la à noite.
Ao passar pelo centro da cidade, seu carro foi atingido em alta velocidade. No hospital, descobriu que era ela quem estava no outro carro. Ela havia terminado o namoro e bebido muito.

Agora ele podia ter a mulher que quisesse dentre todas as outras, menos ela...

16.11.12

Ele e Ela

Não importa muito quanto tempo já passou, se os dois estão sem se falar por algum tempo ou até mesmo se as coisas não foram tão mágicas quanto pareceram quando tudo começou.

Ele fala para Ela que se importa, Ela responde "Eu também".
Ela fala que quer ficar quieta por um tempo, Ele responde "Tudo bem".
Ele pergunta se Ela ainda pensa na paixão da vida dela, Ela diz "Não me faz bem"
Ela fala que precisa de um tempo para a má fase passar, Ele espera vários dias, quase cem.

Ele some, Ela não se importa com isso, faz tudo parte da sua frieza.
Ela aparece um dia para acertar as coisas, botar as cartas na mesa.
Ela carrega algo no fundo, parece uma tristeza.
Ele agora já não se importa, já está tudo na mesma.

Ctrl+C: Blog do Seko.(Jonas Jahns)