10.3.10

Sentou-se, no ônibus, ao lado de um desconhecido

E foram felizes para sempre.
Gabriela Cantergi


Depois de mais um dia cheio de complicações no trabalho, ele entra no ônibus furioso, e senta no banco logo atrás da porta do coletivo. Ele fica pensando no trabalho, nas dificuldades de mais um dia e nas contas que precisaria pagar logo logo, no final do mês, mesmo sabendo que receberia menos do que devia em contas e cheque especial.

Logo após, ela entra, desajeitada como sempre. Ela vê aquele lugar, ao lado dele, livre, o único no seu alcance de visão.
Quando vai sentar, uma moeda escapa e desaparece. Ele escuta o barulho e prontamente tenta ajudá-la a achar a moeda, quando acham, ele sai da frente enquanto ela acrobaticamente alcança sua valiosa moeda de 25 centavos.

Ela comemora, levanta a moeda e exibe como um troféu. Ele sorri, ela sorri.

Logo em seguida, ela pensa em como é meio raro nos dias de hoje alguém ajudar como ele ajudou. Na real, ele nem havia feito nada de mais, apenas havia visto a moeda e saiu da frente pra que ela a alcançasse. Entretanto, a aparência dele lhe era bastante agradável e, juntando-se à isso, fez ela pensar no que pensou.

Como seria bom ter alguém assim. Ela sempre teve sérios problemas com seus relacionamentos. Lembrou do primeiro namorado e como ele a traiu com sua melhor amiga, do amigo do irmão, que deram uns bons amassos, lhe deu sua virgindade, tirou a dele e então ele simplesmente foi embora e de seu colega de faculdade, em que tinha uma relação morna de beijos de vez em quando e um filme no domingo pra saciar seus desejos.

Mas, ele era diferente, era lindo, se propôs a ajudar a achar sua moeda sem muito valor. Deveria ser um amante incondicional.

Ele iria puxar assunto, ela responder, a conversa durar algum tempo e, duas paradas antes de descer, ele pediria seu telefone, já saberiam mais ou menos seus horários e ele a convidaria para um café.
Durante o café, em uma tarde seguinte, conversariam, confessariam seus atos com relacionamentos anteriores. Ela contaria, ele contaria e um convite pro cinema surgiria. No domingo, ela deixaria seu colega de lado e iria com este novo rapaz ao cinema, um filme mediano, talvez até tenha alguma indicação para trilha sonora no Oscar, ela era boa. Foi a única coisa que ela de fato prestou atenção.
Mais dois ou três saídas e ele lhe pediria em namoro. Presente recebido no dia dos namorados, no seu aniversário, Natal e dia da mulher.
Depois de dois anos, talvez um pouco mais, iriam morar juntos, mais ou menos no meio do caminho dos dois trabalhos e perto da faculdade. Ela se forma, lá está ele.
Depois, as contas em dia, tudo certo, o convite pro casamento viria no aniversário do namoro, em um restaurante caro e bem conceituado.
Viria tudo em sequência, casamento, viagem, filho, contas, preocupações e juntos iriam criar as duas crianças. Não se separariam até a aposentadoria, quando compram uma casa na praia e lá ficam até que a morte os separe.

Então, ele levantou, pediu licença e desceu, ainda com as dívidas na cabeça.
Nenhum homem vale nada. Ele, quem sabe, 25 Centavos.

Keep Simple!

3 comentários:

Ana Carolina disse...

adoro visões, ao menos um pouco, mais otimistas da vida :P

Gabriela Cantergi disse...

Engraçada essa tua releitura do meu poema. Conseguiu me surpreender de verdade. Parabéns. Um abraço, fiquei feliz com o que encontrei.

Bruna disse...

Chorei muito quando li. De verdade.
foi assim que conheci meu namorado!
Com algumas modificações. poucas. muito poucas e pequenas as diferenças. mas assim! ♥_♥